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Inventário de borboletas noturnas: quando a noite revela o invisível

Enquanto a maioria das pessoas adormece, milhares de pequenas asas começam a percorrer a escuridão. Discretas, silenciosas e, muitas vezes, ignoradas, as borboletas noturnas desempenham um papel essencial nos ecossistemas. E é para as conhecer melhor que está a decorrer um inventário na Herdade do Zambujo.

O Inventário de Borboletas Noturnas é um projeto da AgroLepi, que nasceu de uma iniciativa desenvolvida pelo entomólogo Hélder Cardoso com o objetivo de utilizar as comunidades de lepidópteros como indicadores da sustentabilidade e da qualidade ecológica de sistemas agrícolas e florestais. Tendo em conta o projeto de restauro ecológico que está a ser desenvolvido na Herdade do Zambujo, o Zambujo reCover, pela The Navigator Company, fez todo o sentido aliar os dois.

O trabalho está a decorrer desde abril e até dezembro de 2026, abrangendo os principais períodos de atividade das diferentes espécies. Mais do que elaborar uma simples lista de borboletas que ali ocorrem, o objetivo é compreender o estado da biodiversidade local e avaliar de que forma as ações de restauro ecológico implementadas na propriedade influenciam as comunidades de insetos ao longo do tempo.

Zambujo como laboratório vivo

A escolha desta herdade não aconteceu por acaso. Localizada numa região do interior do país ainda pouco estudada do ponto de vista entomológico, reúne uma grande diversidade de habitats, desde povoamentos florestais a áreas em diferentes fases de sucessão ecológica, criando condições favoráveis para uma elevada riqueza de espécies.

No Zambujo coexistem diferentes tipos de habitat e diferentes estados de sucessão ecológica, desde áreas de eucaliptal até zonas em reconversão e manchas de floresta autóctone mais desenvolvidas. Esta diversidade cria condições para comparar as comunidades de borboletas noturnas entre diferentes ambientes e compreender quais os habitats que suportam maior riqueza e diversidade de espécies.

A importância das borboletas noturnas

Quando pensamos em borboletas, é comum imaginarmos apenas as espécies coloridas que observamos durante o dia. No entanto, em Portugal existem cerca de 2700 espécies de lepidópteros e apenas uma pequena fração (5%) corresponde às borboletas diurnas. As restantes vivem sobretudo sob o manto da noite.

Apesar de menos conhecidas, as borboletas noturnas são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas. Participam na polinização de inúmeras plantas, constituem uma importante fonte de alimento para aves, morcegos e outros animais e, devido à sua sensibilidade às alterações ambientais, funcionam como excelentes bioindicadores da qualidade dos habitats.

A grande diferença entre borboletas diurnas e noturnas reside, essencialmente, nos seus hábitos notívagos. “De uma forma geral, as borboletas noturnas tendem a apresentar colorações mais discretas, frequentemente em tons de castanho, cinzento ou bege, o que lhes permite passar despercebidas durante o repouso. Também possuem, em muitos casos, antenas com formas diferentes das borboletas diurnas, que normalmente terminam em forma de clava. No entanto, estas características nem sempre se aplicam, uma vez que a diversidade deste grupo é enorme”, explica Hélder Cardoso.

Contudo, também as há com cores vivas e padrões impressionantes, algumas tão ou mais espetaculares que as suas congéneres diurnas.

Metodologia e trabalho de campo

Para as estudar, as equipas realizam expedições de cinco dias, distribuídas ao longo do ano. O principal método utilizado são armadilhas luminosas, que atraem os insetos durante a noite.

Em complemento, recorrem-se a redes entomológicas e a armadilhas de feromonas para aumentar a capacidade de deteção de diferentes espécies. As sessões são cuidadosamente planeadas para noites sem chuva, com pouco vento e, sempre que possível, próximas da lua nova, condições que aumentam significativamente o sucesso das amostragens.

A esmagadora maioria dos exemplares observados é identificada e libertada no local. Apenas em situações específicas são recolhidas amostras para confirmação laboratorial.

Primeiros resultados e descobertas

E já existem algumas surpresas. Só na campanha realizada em abril foram registadas mais de 3 mil borboletas noturnas. Entre os dados mais relevantes destaca-se a confirmação da presença de uma espécie ainda não documentada em Portugal, uma descoberta que será divulgada em breve através de uma publicação científica, revela o entomólogo.

Outro resultado particularmente interessante foi a elevada abundância de espécies do género Cleonymia, associadas a habitats mediterrânicos bem conservados. No total, foram observados cerca de 900 indivíduos pertencentes a três espécies deste grupo, um sinal encorajador sobre a qualidade ecológica de determinadas áreas da propriedade.

Um olhar para o futuro

Mas o verdadeiro valor deste inventário poderá revelar-se nos próximos anos. Os dados recolhidos permitirão conhecer melhor a distribuição das espécies, identificar espécies raras ou pouco documentadas e melhorar o conhecimento sobre as suas preferências ecológicas, afirma Hélder Cardoso. Para além do interesse científico, os dados servirão também para medir a resposta das comunidades de insetos às ações de conservação e restauro ecológico, tanto à escala local como regional.

Por fim, o entomólogo refere ainda que “espera que este projeto ajude a demonstrar que o restauro ecológico e a conservação da biodiversidade podem produzir resultados concretos e mensuráveis. Conhecer as espécies que habitam um território é o primeiro passo para o compreender, valorizar e conservar de forma mais eficaz.”

Porque, por vezes, são precisamente os seres mais discretos que contam as histórias mais importantes sobre a saúde dos ecossistemas. E, na Herdade do Zambujo, essas histórias começam agora a emergir da escuridão, uma noite de cada vez.

SABIA QUE…

  • A diversidade de formas, cores e estratégias de vida faz das borboletas noturnas um dos grupos de insetos mais fascinantes da nossa fauna.
  • As suas lagartas servem de alimento a numerosos predadores, como aves, répteis e artrópodes, enquanto os adultos são consumidos por morcegos, aves noturnas e outros animais insetívoros.
  • As lagartas desempenham ainda um papel importante na dinâmica da vegetação, ao alimentarem-se de folhas, flores, sementes ou outros tecidos vegetais, estabelecendo relações ecológicas muito específicas com as suas plantas hospedeiras. Muitas espécies dependem de uma única planta ou de um grupo restrito de plantas para completar o seu ciclo de vida.

XX de junho de 2026

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